
Have imperator, morituri te salutant!, registrou Suetônio há dois mil anos.
Escrevo estas mal traçadas com treze minutos do primeiro tempo. Olho a cara dela, a Holanda não é mais aquela. Recuada, tensa, já tomou um cartão do Juiz e um esporro do Robinho. Que, aliás, já fez um gol.
Contraria a expectativa de nós todos. Ainda faltam uns oitenta minutos, mas que é estranho a Holanda entrar assim, isso é. Se tomar o segundo gol no primeiro tempo, já era. E, vou falar grosso, se passar hoje, vamos para a final, com todo respeito por Uruguai e Gana.
Depois do gol, o jogo melhora. A Holanda avança e marca no campo de ataque. Lúcio comete seu primeiro erro na Copa. Falta. A Jabulani vai longe, longe.
O jogo está para o Brasil. Jogar em desvantagem no início do primeiro tempo é muito ruim. Qualquer peladeiro sabe.
O gramado está espantosamente feio e o Brasil espantosamente canhoto. Isso apaga um pouco Kaká e confunde as expectativas holandesas.
Meu time é superior, visivelmente. O Juiz não está à altura, meu time percebe e para de se preocupar com as pancadas holandesas, reclama pouco e avança, avança, avança. A defesa da Holanda abre a caixa de ferramentas.
Vai o primeiro tempo para o fim, a Holanda fez uma jogada boa, longa bola enfiada pela direita e só. Perdi a conta da ofensividade brasileira.
Li hoje de manhã que Dunga é muito querido pelos brasileiros. Havera de não ser. Campeão do Mundo, Capitão do Brasil. Sério e, ainda por cima, caçado pela Grande Imprensa. Uma mistura de campeão e mártir. Perfeito. Parece o Lula.
O camisa 11 da Holanda se joga. Falta. Um cruzamento da direita e a primeira falha de Julio Cesar. Gol bobo da Holanda.
Onze do segundo tempo, lá vamos nós de novo. Continua o mesmo jogo, Brasil melhor que Holanda, que erra passes e tudo e fez gol em nossa falha.
Há uma coisa da qual gosto muito no meu time: não ri quando perde gol. Perder gol é coisa muito séria. Time que ri depois de perder gol acha o que engraçado?
Não adianta: a defesa dorme de novo e a Holanda faz dois. Felipe Melo perde as estribeiras de novo e o Brasil joga com dez. Dunga não tem escolha, agora é atacar. Vem Nilmar para cima.
Dez minutos. Dez longos minutos antes de morrer. Três escanteios seguidos a nosso favor. Cada bola longa é uma tristeza, cada segundo, um sofrimento. Como torturar milhões simplesmente fazendo nada, é a tortura holandesa.
Quatro minutos. O Brasil esqueceu que é um time destro. Maicon, livre, se lamenta. Os contrataques holandeses fazem frio nas barrigas. Pô, meu, jogando com dez. Insistimos muito pelo meio. Os holandeses fazem um paredão alaranjado na cabeça da área. Lucio faz o que sabem os maduros: cava uma falta.
Dois minutos, Daniel Alves assoa o nariz, chuta na barreira.
Um minuto, a Holanda empata o duelo de clássicos em dois a dois. A placa levanta três minutos.
Três minutos. Uma tristeza triste entristece meus jogadores, entristece meu sofá, entendo que entristece a África inteira.
Achei que íamos sair da copa tungados. Não foi preciso, erramos, somos mais responsáveis pelo resultado que a Holanda. O que vamos fazer? Um gol e ir para a prorrogação com dez?
É, já foi, a Holanda quase faz três. Meu time perdeu.
Pronto. Os detratores terão o que pediram, finalmente. A cabeça de Dunga em uma bandeja de prata. Regozijem-se, pois.
Mario Avila está muito triste hoje.
eu gosto muito de futebol